DMZ e a fronteira com a Coréia do Norte

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Quando resolvemos que iriamos visitar a Coréia, já colocamos na lista o passeio até a Zona Desmilitarizada (DMZ) da Coréia do Sul, de onde seria possível ver a Coréia do Norte de uma distância segura. Afinal de contas, considerando o regime do país, isso provavelmente seria o mais próximo que iríamos chegar de conhecer o país nessa vida.

No entanto…entre o momento em que decidimos ir pra Coréia do Sul, com passagens compradas, e o momento em que efetivamente viajamos, muita coisa aconteceu. A Coréia do Norte passou a realizar testes com misseis balísticos de alcance variado, alegando que teria capacidade de eventualmente atingir os Estados Unidos. Inclusive, quando estávamos em Quioto, acordamos um dia com a notícia de que um missel Norte-Coreano sobrevoaria o Japão e que o país estava em alerta. Durante o ano, Trump e Kim Jong-Un trocaram farpas e ameaças, e as tensões na região estavam em alta.

Por isso, ficamos em dúvida até o último instante se deveríamos fazer o passeio e só decidimos mesmo já em Seul, quando tivemos confirmação de que os passeios estavam ocorrendo normalmente, sem problemas e sem restrições. Dúvidas superadas, decidimos partir para o passeio.

Há varias opções diferentes, com varias durações diferentes. Optamos pelo tour de meio dia. Neste passeio, era possível parar  no Imjingak Park, onde fica a Ponte de Liberdade. Em seguida, uma parada no DMZ Exhibition Hall, com a descida no Terceiro Túnel de Infiltração/agressão. Depois, uma parada no Observatório Dora, de onde é possível ver a Coréia do Norte de uma plataforma de observação. Por fim, uma parada na Estação de trêm Dorasan, antes de retornar para Seul.

 

DMZ

Antes de entrar em detalhes sobre os passeios, vamos falar um pouco sobre a DMZ. Esse é um nome extremamente irônico, já que na verdade é uma das zonas mais militarizadas do planeta, em particular imediatamente ao fim do limite da Zona Desmilitarizada.

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Fonte: Por Rishabh Tatiraju – Obra do próprio, CC BY-SA 3.0 https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=21452471

É uma faixa enorme que divide a península coreana em duas, e que tem aproximadamente 2 km até a fronteira entre os dois países (4 Km no total). Foi estabelecida em 1953, quando os países assinaram o armistício.

Como mencionado no post anterior, a Guerra da Coréia tecnicamente não acabou ainda, simplesmente fora acordado um “cessar fogo”, que interrompeu o conflito e estabeleceu a fronteira atual, com reconhecimento da nação dividida em duas.

Foi um conflito que foi se desenvolvendo ao longo de anos. O Japão ocupou o país desde 1910 com a derrubada do Império Coreano, até a derrota na Segunda Guerra Mundial, quando os soviéticos expulsaram os japoneses da Coréia do Norte e lançaram seu apoio a região, com posterior apoio da China comunista. Os americanos, naturalmente apoiaram a região Sul do país. Finalmente em 1950 a Coréia do Norte lançou seu ataque ao sul e as tensões escalaram para conflito aberto até a assinatura do armistício. Desde então, o norte permaneceu sob o regime da dinastia Kim, enquanto o sul seguiu adiante como uma republica (salvo por um breve período de regime militar).

Hoje em dia, a Coréia do Sul fatura bastante com turismo por essa região, já que é uma das principais atrações procuradas pelos turistas.

Mas chega de história! Vamos aos passeios.

 

Imjingak Park e Ponte da Liberdade

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O passeio começou cedo, com a agência nos buscando em nosso hotel. Dali, a primeira parada foi no Imjingak Park. A história aqui é que esse parque foi construído como uma forma de consolar refugiados da Coréia do Norte, que fugiram do país durante e após a Guerra da Coréia. É o último ponto antes de entrar na DMZ e tem várias atrações.

É possível ver aqui os restos de uma locomotiva que foi destruída e baleada durante a guerra, e circulava na linha de trem desmantelada que ligava os dois países.

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Ao lado, nas grades com arame farpado, é possível ver inúmeras tiras coloridas, faixas com mensagens de paz e esperanças para que um dia ocorra a unificação.

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Aqui fica também a chamada Ponte da Liberdade. Em 1953, essa ponte foi usada para a transferência de mais de 12 mil prisioneiros de guerra, devolvidos pela Coréia do Norte para a Coréia do Sul. É possível se aproximas mais da ponte e subir em um mirante para ver melhor, mas tem que pagar por um ingresso só para isso. Dispensamos.

O Sino da Paz, construído como um monumento a paz na terra e desejo de unificação do país.

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E mais. É um parque bonito, com vista bonitas. Mas com uma peculiaridade. É bastante limitado o que é possível ver e fotografar. Em particular, é proibido fotografar na direção do rio e de qualquer construção militar. Os soldados estão constantemente monitorando, e não pensarão duas vezes antes de abordar o turista que não respeite as regras.

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DMZ Exhibition Hall e Terceiro Túnel de Infiltração/agressão

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Findo o passeio pelo parque, era chegada a hora de entrar na DMZ e conhecer um dos túneis de infiltração. Mesmo com os países em “paz”, descobriu-se que a Coréia do Norte vinha cavando túneis abaixo da DMZ, para invadir a Coréia do Sul. A Coréia do Norte nega isso, mas a Coréia do Sul conseguiu provar que eram túneis norte-coreano pelas evidências na pedra, da direção da escavação e das explosões. Apenas 4 túneis foram encontrados até hoje, mas estimam-se que pelo menos 17 existam espalhados ao longo da fronteira.

Para fins de visita, é possível conhecer o terceiro túnel de infiltração, ou como os sul-coreanos chamam, “Túnel de Agressão“.

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A história contada é que em 1975 um norte-coreano que conseguiu fugir do país delatou para a Coréia do Sul que havia um túnel sob a DMZ, construído para invadir o sul.

Ao longo de 3 anos, os soldados sul-coreanos perfuraram o chão da DMZ de 2 em 2 metros, com canos de PVC cheios de água para descobrir se havia alguma passagem subterrânea. Assim, eles finalmente descobriram o túnel inacabado, e escavaram até encontrá-lo. Procederam com a criação de 3 barreiras até a fronteira, para impedir que os norte-coreanos pudessem invadir. Por décadas soldados foram mantidos 24h monitorando as barreiras. Atualmente, o monitoramento é feito por cameras.

Esse é um passeio de alta segurança. Começa com uma visita ao Hall de exibição, que conta um pouco da história da DMZ, da guerra e do túnel. Depois dessa mostra, é possível conhecer o túnel propriamente dito.

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É um passeio intenso. É estritamente proibido entrar com cameras ou celulares. Somente pessoas e com capacetes de segurança. E não é para qualquer um. Começa com uma descida íngreme por aproximadamente 300 metros até chegar no túnel. Ele foi construído com 2 metros de altura e 2 metros de largura, mas graças a estrutura de suporte colocada para manter o teto e as paredes no lugar, é bem mais estreito e baixo do que isso, provavelmente tendo apenas 1,60m de altura para andar e largo o suficiente para apenas duas pessoas passarem lado a lado. Viu a importância dos capacetes? O David, que tem 1,83m, andou praticamente agachado e ainda assim batendo a cabeça a cada 10 segundos!

Lá dentro é quente, úmido e abafado. E depois de mais 300 metros andando, chega-se na terceira barreira. É o mais longe que da pra ir e o mais próximo que se pode chegar da Coréia do Norte (aproximadamente, 170 metros da fronteira). Da pra olhar pela janela da barreira e ver a segunda barreira, onde antigamente soldados ficariam de prontidão.

Depois disso, é andar de volta. É difícil, cansativo, lotado de gente e a volta é ainda mais complicada, já que é uma subida e depois de já ter passado um bom tempo naquele ambiente hostil e com pouco ar. E fazendo com agência tudo isso tem que ser feito no tempo disponibilizado por eles pro passeio, que é bem apertado.

Observatório Dora

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Depois de recuperar um pouco o fôlego da volta do túnel, era chegada a hora de ir ao Observatório Dora, de onde é possível ver a Coréia do Norte com algum dos telescópios disponíveis (mediante pagamento, claro).

De lá, a principal vista que temos é de Kijŏng-dong, ou “Vila da Paz” pros norte-coreanos. Pros sul-coreanos, o nome é outro. Vila da Propaganda. É uma cidade inteira construída próxima a fronteira, com grandes edifícios e aparentemente bem moderna para a época. No entanto, é uma mentira. Os edifícios não são ocupados, não possuem vidros nas janelas nem foram terminados por dentro, as luzes da cidade acendem e apagam em horários pré- determinados e é tudo feito apenas para criar a ilusão de modernidade e grandeza do regime, para atrair os sul-coreanos.

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Além disso, há enormes caixas de som disparando propaganda norte-coreana diariamente, exaltando as maravilhas da vida no país e criticando os Estados Unidos e modo de vida ocidental e capitalista. Elas estavam em perfeito funcionamento durante a nossa visita, e eram perfeitamente audível do observatório. Como retaliação, os sul-coreanos costumam revisar, colocando K-Pop nas alturas para que os norte-coreanos possam ouvir. O que irrita imensamente o regime, já que a música pop coreana frequentemente alardeia o estilo de vida da Coréia do Sul.

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Gangnam Style – Possivelmente um arma de propaganda sul-coreana =P

Outra curiosidade visível são das bandeiras das Coréias, protagonistas da chamada “Guerra das Bandeiras”.  A Coréia do Sul construiu em seu território um grande mastro com a bandeira do país, com quase 100m de altura. A Coréia do Norte viu isso como um ato de provocação, e imediatamente ergueu seu próprio mastro, com 160m de altura, e nele hasteou a bandeira da Coréia do Sul. Até 2010, esse era o maior mastro do mundo.

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Estação de trêm Dorasan

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A estação Dorasan é a última estação e a mais ao norte da Coréia do Sul. Ela teoricamente uniria a linha de trem sul-coreana com a norte-coreana, e permitiria ir até Pyeongyang (capital da Coréia do Norte).

Ela chegou a ser usada por um tempo quando a Coréia do Sul e Norte cooperavam mais, no parque industrial de Kaesong. Não esta em uso atualmente, servindo apenas como mais um monumento ao desejo de unificação entre as Coréias.

Nada de muito especial para ver ou fazer aqui, é uma parada rápida antes de voltar pra cidade.

***

Assim como no Memorial da Guerra, saímos desse passeio entendendo um pouco mais desse país fragmentado, e que apesar de tudo, almeja um dia a paz e a unificação de todo seu território. É um enorme desafio que eles tem pela frente, mas quem sabe um dia.

Depois de todo esse passeio, que ocupou a manhã inteira, tudo que queríamos era um bom almoço, e encerrar nossa viagem experimentando o legítimo churrasco coreano. Que será o objeto do próximo post!

 

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